Caminhos

Anna Elisa Penalber
Psiquiatra, psicanalista, Membro Efetivo/SPCRJ

Diagnóstico

Wilson Batista e Germano Augusto

Eu fui ao doutor, me consultar.
Ele me levou ao raio-X
Bom amigo, eu não quero lhe desgostar.
Mas você tem uma saudade no peito
Só o tempo que pode lhe curar

Eu sinto muito, mas não há remédio.
Pra combater esse malvado tédio
O micróbio da saudade é renitente
Custa muito abandonar o coração da gente
A medicina está muita avançada
Mas no seu caso, não adianta nada.
É incurável a sua enfermidade
Não remédio para curar uma saudade.

Imersa numa extrema ansiedade, aquela dona de casa dedicada ao marido e aos dois filhos falava das dores generalizadas que deixavam seu corpo moído, cansado e sem energia. Tudo começara com dores na articulação da mandíbula, durante um tratamento de dente. Dores que nenhum dentista conseguia solucionar ou lhe dizer a causa. Da mandíbula, as dores chegaram ao pescoço, braços e pernas. Vivia assombrada com diagnósticos que ela se dava através de leituras ou ao saber da doença de alguém. Temia doenças degenerativas ou a fibromialgia, vista como incurável.

É o insuportável do sintoma que leva o sujeito a procurar uma medicação e o analista a aconselhar uma consulta com um psiquiatra.

Para a medicina, o sintoma, que leva o sujeito ao consultório, é um transtorno que acarretará, na maioria das vezes, uma medicação de eficácia consagrada. Tudo muito simples e eficiente; mas, a lida diária com o medicar deixa clara a complexidade da situação, e que o caminho para eficácia é árduo.

Não basta administrar uma medicação. É necessário considerar a subjetividade presente no sintoma: a história e singularidade de cada um. O sofrimento psíquico não se restringe às questões genéticas e neuroquímicas. A dor psíquica não se reduz a uma pane ou falha no sistema neuroquímico cerebral, que psicofármacos ajustariam e equilibrariam. Ela surge entre desejos e escolhas; satisfações e frustrações; esperanças e decepções.

Tamponado pela medicação, o sintoma cede, mas não desaparece. O sujeito se rebela; queixa-se da medicação; usa de forma inadequada ou não a utiliza. Tanto diante de um analista quanto diante de um médico, é o sujeito que indica o caminho a seguir. O psicanalista sabe disso, o médico ignora. Ele não admite o saber inconsciente que cada sujeito carrega dentro de si. Um saber que se insinua através de seus sintomas e angústias. Tristezas e medos trazem questionamentos fundamentais ao sujeito. Não permitir essas vivências é silenciá-lo.

Helen estava ali por desespero e indicação de sua analista. Tomada por suas dores, só pensava e falava delas. Nada mais produzia em análise. Desespero e angústia calaram a palavra que se encontrava aprisionada numa repetição que denunciava e ocultava suas dores psíquicas. Resistia à idéia da medicação: preferia a homeopatia. Além disso, estivera num psiquiatra que lhe prescrevera antidepressivos sem sucesso. Ela apresentara efeitos colaterais que obrigavam a troca do antidepressivo.

A mulher, submetida aos desejos do marido e dos filhos, sistematicamente colocava em cheque a ciência. Médicos e dentistas se viam enredados por efeitos colaterais e fracassos terapêuticos.

O sujeito, que chega para uma avaliação, fala de seu sintoma: conta de si. Sintomas e palavras não valem apenas por seu sentido manifesto, mas por aquilo que comunicam da singularidade de cada um. Singularidade silenciosa que, não só participa, mas interfere num tratamento.

O sintoma porta algo da ordem de um enigma. Enigma a ser decifrado, onde verdade e engano não são excludentes.

“Não tomo mais antidepressivo. Passei muito mal com os que me deram”, anuncia decidida. “Não suporto a idéia de estar deprimida. Será que tenho depressão?”. Helen buscava e temia os mais diversos diagnósticos clínicos para não saber das tristezas e conflitos. Não suportava saber de seus desejos, da sobrecarga que se impunha diariamente, das falhas e imperfeições de sua vida. As dores musculares refletiam as dores psíquicas e a protegiam do enorme desamparo que temia viver.

Prescrever uma medicação demanda delicadeza e tempo. Delicadeza para não anestesiar, delicadeza para não atropelar o sujeito com um saber externo a ele. Para tanto, é preciso tempo. Tempo para que uma relação se estabeleça, para acompanhá-lo em seu percurso; para encontrar o momento apropriado, onde a medicação liberte o movimento interno estancado pela dor.

O antidepressivo estava descartado. Seria, de novo, vivido como um corpo estranho a ser eliminado. Daí tantos efeitos indesejáveis. O intolerável estava na palavra “antidepressivo”: Como alguém ousava lhe falar de tristeza? Como alguém poderia considerá-la deprimida?

Os psicofármacos possuem muitos efeitos desagradáveis e prejudiciais. Porém, a clínica mostra que os medos, as fantasias e o desamparo de cada sujeito interferem nos resultados. Temores e fantasias podem levar ao não uso da medicação, à exacerbação de efeitos colaterais ou ao surgimento de efeitos impossíveis por serem da ordem do imaginário. Podem, ainda, levar à resistência para mudar a dose ou a medicação quando necessárias.

Não considerar ou desvalorizar esses temores e fantasias leva a impasses, onde o desespero se instala em ambas as partes. Médico e paciente vêem-se impotentes. Ficam imobilizados num provar a si e ao outro quem detém a razão e o poder.

Cabe ao médico, mais que fazer um diagnóstico e prescrever uma medicação, compreender a singularidade que é o sofrimento em cada um; e que a atuação de um medicamento é única, assim como a relação que o sujeito estabelece com ela. Com isso, o médico sai do lugar daquele que sabe tudo, abrindo espaço para que o sujeito fale.

Helen falava de suas dores. Dores na nuca, mandíbula, braços, dedos e pernas. Dores que migravam de um ponto ao outro; ou estacionavam, temporariamente, em algum ponto. Provenientes de angústias e ansiedades de seu cotidiano, transformavam a noite no palco onde dor e medos prevaleciam, não permitindo que Helen dormisse.

Surge a idéia de um ansiolítico em gotas. Assim, poderia manter doses que proporcionassem alívio das tensões e angústias, sem a deixar sonolenta, com dificuldade de pensar, lembrar ou agir. Gotas permitem doses individualizadas. Distribuídas ao longo do dia, as gotas promoveriam pausas na agitação de seu cotidiano; à noite, elas silenciariam os fantasmas que não permitem Helen conciliar o sono.

Depois de ouvir atenta minha sugestão, Helen passa as suas inúmeras dúvidas e perguntas. Resultado: um diálogo onde a prescrição é confeccionada em conjunto.

O desamparo humano, vivido ao extremo, acarreta dor e paralisia. Já não há mais espaço para o mal-estar no homem. É preciso estar sempre feliz, jovem e saudável. Dor, envelhecimento e morte estão fora de moda. Afinal, a ciência nos oferece soluções simples, práticas e rápidas para que o sofrimento desapareça.

O sujeito que procura o psiquiatra espera o fim mágico de seus males e ele não vem, a melhora é gradativa e requer trabalho árduo. Trabalho para o qual a psicanálise convida aquele que a procura.

Referências
Birman, Joel. Relançando os dados: a psicopatologia na pós-modernidade, novamente. In: O (Im)possível diálogo psicanálise psiquiatria, VIOLANTE, Maria Lucia Vieira (Org.). São Paulo: Via Lettera, 2002.

Penalber, Anna Elisa: Quem está na chuva é para se molhar.
Sayd, Jane Dutra. Mediar, medicar, remediar: aspecto da terapêutica na medicina ocidental. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998.

Galvão, Manuel Dias. O Sintoma na Psicanálise e na Psiquiatria. In: O (im)possível diálogo psicanálise psiquiatria, VIOLANTE Maria Lucia Vieira (Org.). São Paulo, 2002