VOLVER AO CÉU DE SUELY

CARMEN THOMPSON
Psicanalista, Membro Titular e Supervisora da SPCRJ
Bailarina e Escultora

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Não é por coincidência que estão em cartaz ao mesmo tempo, dois excelentes filmes que tratam da questão do Feminino. Ambos os diretores – Almodóvar e Karim Ainouz - são homens e são conhecidos pelo interesse que têm demonstrado nas relações pessoais e sua inter-relação com o social em recentes produções cinematográficas. Isto nos demonstra que esta questão do Feminino está na ordem do dia.
Embora ambos os filmes apresentem características bem regionais, eles transcendem o tempo e o espaço e assumem uma dimensão universal e milenar, eu diria até, arquetípica. Mais ainda, ambos os diretores procuram deter o olhar detalhadamente nas transformações pelas quais as mulheres estão passando, transformações estas que decorrem de uma percepção, de uma tomada de consciência por parte das mulheres, do estado de marginalização e de descaracterização em que foram colocadas na sociedade masculina milenarmente construída.


No livro “O livreiro de Cabul”, da jornalista norueguesa Asne Seierstad, que viveu por três meses com uma família afgã em 2002, temos a descrição detalhada da situação  feminina na Sociedade Oriental, situação  de total submissão ao homem e às leis e regulamentos masculinos ainda vigentes e atuantes nos dias de hoje. Ela conta o exílio imposto à primeira mulher pelo marido, após seu segundo casamento com uma jovem de 16 anos; conta a exploração sexual de jovens viúvas sem recursos, sendo ambas as situações de rotina devidas à total dependência econômica e de decisão, imposta às mulheres desde o nascimento. Asne conta ainda o impressionante assassinato da jovem adúltera, realizado por sufocamento com travesseiro pelos três irmãos sob as ordens da própria mãe, com a solidariedade de toda a comunidade. A mulher afgã tem, como conta este documento jornalístico, a função social de empregada, de escrava, de geradora de filhos, sendo por isto aprisionada dentro de casa e devendo se esconder dentro de uma burca, não podendo ser vista nem ouvida, nem tendo direitos ou escolhas. O pior crime é uma mulher se apaixonar, isto é rigorosamente proibido pelos homens e pelos mulás e pode levar ao castigo da morte. Amor não tem a ver com casamento, que é um contrato entre famílias, onde as mulheres são um objeto de troca e venda.


Na Sociedade Ocidental, considerada como o paraíso da democracia, podemos ver que não estamos assim tão distantes do Oriente, na medida em que tomamos conhecimento dos dados estatísticos sobre a violência contra a Mulher. Citando como exemplo só o Rio de Janeiro, de acordo com o Instituto de Segurança Pública, no primeiro semestre de 2005 foram registrados 12.540 casos de lesão corporal e 9.158 registros de ameaça contra mulheres. Em 2006, também no primeiro semestre, foram registrados 12.530 casos de lesão corporal e 8.917 de ameaças. É interessante notar que as lesões corporais aparecem em número superior às ameaças registradas, o que já denuncia um silêncio significativo. São inúmeros os casos de estupro e outras violências físicas que nem são registrados, principalmente quando há o rompimento da relação do casal, ou porque o homem sente sua honra ameaçada e imagina que ela deva ser defendida a todo custo  para se sentir à altura dos ideais de virilidade.


“VOLVER” e “O CÉU DE SUELY” mostram então como as mulheres vão se dando conta das limitações que lhes são impostas pelas relações masculinas, pelo sistema social e cultural, cuja origem é também masculina e resolvem iniciar uma re-construção da Identidade para assumir a própria vida de maneira mais digna.
É surpreendente que em ambos os filmes elas encontram como elemento-chave, primordial para a realização de sua meta, o apoio e até a conivência das outras mulheres, que assumem a figura da MÃE QUE APROVA E ATÉ ENCORAJA ESTA  VIRADA, QUE SUPÕE O ASSASSINATO DO PAI ESTUPRADOR.
Para que se realize este objetivo, ambos os diretores são peremptórios: é indispensável que se faça uma viagem de volta ao interior, à cidadezinha pequena, à cidade natal, isto é, uma viagem para dentro de si mesma onde seja restabelecido o contato com o que é original e único na mulher,ou seja, a feminilidade, a sexualidade feminina, o corpo feminino.


No filme de Almodóvar, no exato momento em que brota a sexualidade da neta Paula, seu padrasto tenta estuprá-la, da mesma maneira que o avô já havia estuprado sua mãe, Raimunda. A história portanto se repete, não só nesta família, mas milenarmente. Mas, o importante mesmo é que o estupro não é só físico e nem se dá só na adolescência. O estupro físico é praticado na filha - mulher, através de uma penetração, do uso indevido do corpo feminino, envolvendo violência, desrespeito. O estupro mental, realizado desde o nascimento da filha, é a invasão feita de mensagens, (des)qualificações, restrições, leis que os homens criaram, e que vêm formar o que Freud chamou de Superego, através de todo um sistema social e cultural que é passado tanto para a filha como para o filho, inicialmente pela própria mãe, que por sua vez, já foi também penetrada e emprenhada desde criança por este Superego masculino.


Em 1913, Freud escreveu “Totem e Tabu”, onde demonstrou interesse pela Antropologia Social. Ele estabeleceu a hipótese de que na Horda Primitiva, a morte do Pai Primitivo teria dado origem a quase todas as instituições culturais e sociais posteriores. Freud notou, estudando os aborígenes australianos, que eles criaram o sistema totêmico, onde cada clã era identificado por seu TOTEM, geralmente representado por um animal que era herdado , evidentemente, pela linhagem feminina. Nesta época o homem percebia que a maternidade era inquestionável, enquanto a paternidade nunca era garantida. Isto se deve ao fato de que o homem tem uma participação só inicial e limitada na procriação, ao passo que a mulher possui um corpo capacitado para efetivar um complexo processo, cujo percurso vai da concepção à gestação, ao parto até a amamentação, para a criação dos filhos, o que garantirá a perpetuação da espécie humana. Por isto o homem teve então, o mais escrupuloso cuidado e a mais rigorosa severidade de criar regulamentos e toda sorte de regras para controlar a vida sexual da mulher, para garantir a paternidade e evitar que outros homens tivessem relações com ela, principalmente tentando impedir o incesto, ou seja, a relação do filho com a mãe ( Édipo ).


O homem passou então a se considerar dono da mulher, e a violação destas proibições era severamente castigada por toda a comunidade. Esta era a lei do Pai, de Deus. É o mais antigo Código de Leis escrito pelo homem. Este conjunto de leis teria formado a Cultura e a Civilização com seus sistemas de controle, fiscalização, punição, etc, surgindo as figuras dos chefes, reis, sacerdotes, papas, guerreiros, juízes, etc. A proibição do incesto é mais antiga que a domesticação dos animais e foi aí que começou também a domesticação da Mulher e dos impulsos sexuais. A mulher passou então a ser considerada castrada, sexual e mentalmente, sendo que não era reconhecida utilidade no seu corpo, a não ser a procriativa, quando ele era usado pelo homem, que era considerado possuidor do Falo ( símbolo de poder e de fertilidade ). A mulher era considerada inferior ao homem e, por isso, deveria ser dependente, submissa e obediente a ele. O filho era afastado da mãe quando atingia a puberdade e era contido em seus impulsos sexuais através dos ritos de passagem. Ficava assim impedido de cometer o incesto e de vir a assassinar o pai, o que certamente ocorreu primitivamente, deixando marcas indeléveis na História da Humanidade.


Em 1930, Freud voltou a tratar deste tema em “Mal-estar da Civilização”, mostrando que toda a Civilização foi criada a partir do Complexo de Édipo e que a Pulsão Destrutiva ( Narcísica ), ou seja, o desejo de poder, de domínio, fez com que a Humanidade trocasse uma parcela de sua felicidade pela parcela de segurança. Freud descreveu o SUPEREGO como sendo constituído por este sistema de leis masculinas que são absorvidas pelo psiquismo de todo ser humano, condição sine qua non, tanto para os homens como para as mulheres, serem inseridos na sociedade. O Superego funciona como instância de fiscalização e controle. Ele é o herdeiro do Complexo de Édipo, e, conseqüentemente, é carregado da Pulsão de Morte. Portanto, as mulheres desde pequenas são invadidas e assimilam uma identidade que as descaracteriza e que necessita ser re-avaliada, por ser fruto de uma necessidade masculina de controle.


Almodóvar mostra como o espírito da mãe precisa ser detectado.  Aquilo que não pode ser tocado, os mal entendidos e os segredos, precisa ser encarado, ouvido, visto, dito, identificado e principalmente, testemunhado, para em seguida ser incinerado e enterrado. Cabe lembrar aqui a deslumbrante cena inicial do filme de Almodóvar, onde todas as mulheres cultuam e cuidam dos túmulos de seus maridos, ao mesmo tempo que transparece um clima de felicidade e de cumplicidade entre elas pela morte deles que chega a ser festivo, da mesma maneira que Hermila, no filme de Ainouz, demonstra grande felicidade e liberdade ao abandonar o namorado na cidadezinha natal.


Ainouz e Almodóvar mostram que a subserviência e a dependência das mulheres em relação aos homens para sobreviver é um equívoco. Esta crença faz parte do que lhes foi inoculado. Assim é que Hermila, ao se dar conta da infantilidade do marido e pai de seu filho através da fala da sogra, “ meu filho só tem vinte anos”, abandona o sonho de precisar dele e não procura substitui-lo às pressas, colocando todas as esperanças em outro homem. Raimunda, ao tomar conhecimento da tentativa de estupro da filha Paula, pelo marido Paco, não hesita em apóia-la, chegando ao ponto de assumir o ato da filha quando esta o mata. Depois a mãe se encarrega de enterrá-lo.


É portanto na contemporaneidade que se dá, depois de um longo período de maturação, a VIRADA das mulheres, não mais seguindo o rumo imposto pelos homens, mas seguindo o rumo da busca da própria identidade, da recuperação da dignidade ultrajada. O homem não é mais o Deus. O pênis não é mais o Falo. O objetivo agora é a recuperação de si mesma, o reconhecimento de que o Falo é seu corpo que é capaz de várias realizações, principalmente como gerador de prazer, além de ter o poder de criar outros seres, possibilitando a perpetuação da espécie humana.


Na verdade, Hermila se dá “uma noite no paraíso”, onde, apesar da dor de se reconhecer fora de seu rumo, de seu eixo, começa a se encontrar, e pode então partir para a grande viagem que sempre foi almejada: a do auto-reconhecimento e da auto-realização. Ela rifou e se livrou daquela mulher submissa, dependente e sem perspectiva que tinha sido.


Raimunda, por sua vez, precisa re-encontrar a mãe, Irene, e dar corpo e voz a ela, para tomar conhecimento de sua posição reprovadora e anuladora do pai estuprador. Almodóvar e Ainouz são radicais: acham que a mulher tem que matar o homem estuprador, o Superego, dentro de si, e tem que enterrar o que recebeu dele. Tem que finalmente viajar para um lugar, o mais distante possível de tudo que aprendeu sobre si  desta cultura masculina, e começar a tomar contato e a construir uma identidade genuína, isto é, condizente com seu corpo. Construir para si, uma nova cultura, novos valores, novas leis. Não é que a mulher não seja mais capaz de amar um homem, mas a mulher não precisa mais deste Superego, nem destas leis que aí estão.


O corpo e a mente da mulher não podem mais ser usados, invadidos e desvalorizados. Os filmes deixam claro que o homem até agora quis possuir o corpo feminino, a sexualidade feminina, confundindo sexo e amor com domínio e descaracterização pela forte ação da Pulsão Destrutiva ( Narcísica ). Mas, o corpo feminino, capaz de realizar tantas funções, não pode ser transferido nem vendido.


Por todas estas transformações femininas, tão bem descritas nos dois filmes, o homem se encontra numa grande crise, perdendo o lugar de pai, de marido, de cidadão, de legislador, de governante, de provedor ... está desamparado, perdendo o rumo, sentindo-se abandonado “num mundinho que não evolui”  como o namorado de Hermila, e enterrado como os homens de VOLVER.


Parece que também os homens serão levados a fazer uma viagem às suas origens para transformar os equívocos de seu próprio Superego, o que, certamente, deverá ter uma grande repercussão na nossa Civilização.

 

Rio, 13/01/2007.