Abril despedaçado e a violência estruturada

Resumo

O artigo esboça uma tentativa de compreensão dos efeitos devastadores da falência do pacto social sobre a constituição do sujeito. Desprotegido por uma ordem comunitária e remetido ao salve-se quem puder, é pela via da violência que ele encontra a única forma de transcender sua insignificância e de se legitimar no sistema.

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O cineasta brasileiro Walter Salles Jr. transportou, com muita felicidade, para um cenário brasileiro, o que no original do romance albanês, de Ismail Kadaré, dizia respeito à cultura a que este pertence. Não sem razão, evidentemente: afinal, tanto o artista que privilegia a imagem (cinema) quanto o que se ocupou de uma narrativa (literatura) são egressos de caldos culturais marcadamente distintos, mas que dotam o espaço de pertinência de ambos de códigos em que a moralidade aparece eivada das marcas de uma violência implacável. O brutal provém de uma norma tautológica (assim é porque tem de ser) que não pode ser questionada, em que não cabe uma ética do sujeito diferenciado e responsável por seu próprio desejo.

Um destino sinistro e previsível, cunhado na aridez de uma repetição mortífera, fixa o homem num tempo e num espaço tediosamente inalteráveis, determinados por uma verdade absoluta e definitiva que inevitavelmente cobra a servidão humana. Num contexto onde não há lugar para a criatividade, o sujeito fica privado do que é essencial, para que a vida ganhe sentido: ter as condições ambientais facilitadoras da possibilidade dele se inventar e sentir-se o criador de sua criatura. Só assim, não tenderá à alienação e poderá inserir-se no espaço sócio-cultural, sentindo-se responsável e identificado com sua função e sua cidadania.

Se, no entanto, a relação com o poder é de uma natureza irredutível e inquestionável, todo o sistema gira em torno de um eixo que retorna sempre ao ponto de partida, sem qualquer alteração de rota. Nada nunca acontece para além do que já foi exaustivamente visto e revisto. Cunha-se insistentemente uma trajetória cega, que pode ser feita mesmo de olhos vendados, porque não há como se escapar dela. Nada mais que um roteiro cego e infeliz, e conseqüentemente, vazio. Um circuito viciado e sem perspectiva aprisiona seus reféns nesse eterno e monótono presente, a menos que se vislumbre alguma brecha, um desvio que suscite uma esperança mínima de uma alteridade e de um outro curso possível da história.

Só que em terra de cegos, quem vislumbrar alguma saída, se tiver um olho só que seja, é tido como louco, como preconiza nosso lúcido cineasta. No entanto, acreditem se quiser: a loucura é poder sonhar, transgredir a mesmice e aspirar construir sua própria história, arcando com os riscos implícitos quando se deseja dar a seu próprio enredo um desenho original, diverso do script pré-traçado pelas gerações que lhe antecederam. Impedido pelo obscurantismo que o cerca, de uma transgressão mínima e necessária para forjar uma identidade, o ser que funciona, mas não existe, não alcança nunca a maturidade. Permanece para sempre sem nome, eternamente em sua condição de menino, como o personagem do filme, precocemente condenado à morte anunciada, na forma como o designam. Se ele é tão somente Menino, nunca vai ser alguém, não tem futuro, não tem como construir projetos, não tem uma via por onde crescer. Como habitante de uma Terra de Ninguéns, se ousar se rebelar tornar-se-á definitivamente perdido. Para ele não há esperança: o lúdico (o circo), as fantasias, que se der muita sorte poderá ter o privilégio de acessar em seu mundo interno, estão para ele objetivamente interditados.

Sabemos que o ser humano não é capaz de fazer renúncias às suas impetuosas demandas pulsionais, a menos que a conveniência de trocas compensadoras o incite a abandonar as satisfações instantâneas pela promissora possibilidade de novas gratificações e conquistas, que o sacrifício da renúncia pode gerar. Nesse caso, seu desejo se expande e se projeta no horizonte, recriado pelos ideais que perseguirá ao longo de sua trajetória existencial. Eles serão os norteadores identitários que marcarão seu lugar no mundo e atenuarão o inevitável isolamento e a solidão que a aventura humana do existir implica. A auto-estima se consolidará quando ele obtiver um reconhecimento social que ateste seu valor produtivo e lhe garanta uma dignidade de ser, e não a aviltante condição de sentir-se um mero utilitário. Legitimado pelo sistema no qual se encontra inserido, esse sujeito se inventa potente e criativo e sua vida ganha um valor, fazendo-o senti-la prazerosa de ser vivida.

Agora, se o pacto social não é respeitado, e o sujeito não se ressarci de alguma maneira, pelo esforço e renúncia a que teve que se submeter na expectativa de ser incluído no complexo cultural, ele naturalmente se sentirá desobrigado do compromisso com o sistema que não lhe reconhece. Assim, nas organizações injustas e arbitrárias envolvidas na distribuição de poderes e riquezas, seus membros não vêem sentido em preservar seu habitat, tudo o que o cerca, e muito menos desenvolver algum respeito e amor pelo seu próximo. Se sua própria existência não tem um valor, se o sujeito se sente ele próprio um produto barato e descartável, sua conduta predatória não deve causar qualquer estranheza. Ele está simplesmente devolvendo ao mundo o que dele recebe. Sem culpa, faz uso de uma moral selvagem e individual (olho por olho, dente por dente), totalmente dissociada de uma ética. Ética que não se construiu porque não havia o que preservar nem dentro nem fora.

Nos sistemas impiedosamente autoritários – ainda que ardilosamente camuflados por uma fachada liberal ou neo –, os ideais, matéria prima de são feitos os sonhos, não têm espaço para se inserir. Se o sujeito estiver impedido, então, mediante a ausência de amor, de interferir na realidade da qual faz parte, a ele não restará mais que o ódio para “honrar” o seu lugar no mundo. A violência, então instaurada em sua radicalidade, pode se constituir num recurso, utilizado para deixar alguma marca inscrita, mesmo que sangrenta. Isto, ainda que um arremedo de sucesso implique o sacrifício de sua própria existência, com o conseqüente encurtamento de sua passagem pela Terra em nome de uma causa o mais das vezes banal. Escapa-se, assim, do constrangedor anonimato de uma vida fútil, sem sentido e sem nenhuma graça. Diante da perspectiva de uma miserável mesmice, a organização ou a adesão a uma causa qualquer se torna um objetivo, e este sujeito – que não tem mais nada que o estruture como ser desejante num mundo ao qual ele não se sente pertencendo verdadeiramente – a ela se agarra. Na falta de uma alternativa, só lhe resta abraçar esta causa sinistra, e até morrer por ela se for o caso. Esse sujeito é movido pelo orgulho de se presentificar desta maneira no mundo, em que escapar do perigo, a todo o momento, passa a se constituir na mola-mestra de sua desprezível insignificância. Ele insiste em sua trajetória de aventuras, mesmo que extremamente desesperançado, e ainda que não acredite na possibilidade em qualquer mudança substancial. Ou mesmo quando já perdeu de vista a verdadeira razão de sua sede de vingança. Talvez só para se sentir real, autor de um destino ao qual aspira por bem ou por mal se apropriar. Ainda que assustadora, nesta forma sua de existir, ele pensa poder através dela alcançar, por fim, alguma legitimidade ...

Rachel Sztajnberg
Membro titular da SPCRJ