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Abril despedaçado e a violência
estruturada

Resumo
O artigo esboça uma tentativa de compreensão dos efeitos
devastadores da falência do pacto social sobre a constituição
do sujeito. Desprotegido por uma ordem comunitária e remetido
ao salve-se quem puder, é pela via da violência que
ele encontra a única forma de transcender sua insignificância
e de se legitimar no sistema.
*****
O cineasta brasileiro Walter Salles Jr. transportou,
com muita felicidade, para um cenário brasileiro, o que no
original do romance albanês, de Ismail Kadaré, dizia
respeito à cultura a que este pertence. Não sem razão,
evidentemente: afinal, tanto o artista que privilegia a imagem (cinema)
quanto o que se ocupou de uma narrativa (literatura) são
egressos de caldos culturais marcadamente distintos, mas que dotam
o espaço de pertinência de ambos de códigos
em que a moralidade aparece eivada das marcas de uma violência
implacável. O brutal provém de uma norma tautológica
(assim é porque tem de ser) que não pode ser questionada,
em que não cabe uma ética do sujeito diferenciado
e responsável por seu próprio desejo.
Um destino sinistro e previsível, cunhado na aridez de uma
repetição mortífera, fixa o homem num tempo
e num espaço tediosamente inalteráveis, determinados
por uma verdade absoluta e definitiva que inevitavelmente cobra
a servidão humana. Num contexto onde não há
lugar para a criatividade, o sujeito fica privado do que é
essencial, para que a vida ganhe sentido: ter as condições
ambientais facilitadoras da possibilidade dele se inventar e sentir-se
o criador de sua criatura. Só assim, não tenderá
à alienação e poderá inserir-se no espaço
sócio-cultural, sentindo-se responsável e identificado
com sua função e sua cidadania.
Se, no entanto, a relação com o poder é de
uma natureza irredutível e inquestionável, todo o
sistema gira em torno de um eixo que retorna sempre ao ponto de
partida, sem qualquer alteração de rota. Nada nunca
acontece para além do que já foi exaustivamente visto
e revisto. Cunha-se insistentemente uma trajetória cega,
que pode ser feita mesmo de olhos vendados, porque não há
como se escapar dela. Nada mais que um roteiro cego e infeliz, e
conseqüentemente, vazio. Um circuito viciado e sem perspectiva
aprisiona seus reféns nesse eterno e monótono presente,
a menos que se vislumbre alguma brecha, um desvio que suscite uma
esperança mínima de uma alteridade e de um outro curso
possível da história.
Só que em terra de cegos, quem vislumbrar alguma saída,
se tiver um olho só que seja, é tido como louco, como
preconiza nosso lúcido cineasta. No entanto, acreditem se
quiser: a loucura é poder sonhar, transgredir a mesmice e
aspirar construir sua própria história, arcando com
os riscos implícitos quando se deseja dar a seu próprio
enredo um desenho original, diverso do script pré-traçado
pelas gerações que lhe antecederam. Impedido pelo
obscurantismo que o cerca, de uma transgressão mínima
e necessária para forjar uma identidade, o ser que funciona,
mas não existe, não alcança nunca a maturidade.
Permanece para sempre sem nome, eternamente em sua condição
de menino, como o personagem do filme, precocemente condenado à
morte anunciada, na forma como o designam. Se ele é tão
somente Menino, nunca vai ser alguém, não tem futuro,
não tem como construir projetos, não tem uma via por
onde crescer. Como habitante de uma Terra de Ninguéns, se
ousar se rebelar tornar-se-á definitivamente perdido. Para
ele não há esperança: o lúdico (o circo),
as fantasias, que se der muita sorte poderá ter o privilégio
de acessar em seu mundo interno, estão para ele objetivamente
interditados.
Sabemos que o ser humano não é capaz de fazer renúncias
às suas impetuosas demandas pulsionais, a menos que a conveniência
de trocas compensadoras o incite a abandonar as satisfações
instantâneas pela promissora possibilidade de novas gratificações
e conquistas, que o sacrifício da renúncia pode gerar.
Nesse caso, seu desejo se expande e se projeta no horizonte, recriado
pelos ideais que perseguirá ao longo de sua trajetória
existencial. Eles serão os norteadores identitários
que marcarão seu lugar no mundo e atenuarão o inevitável
isolamento e a solidão que a aventura humana do existir implica.
A auto-estima se consolidará quando ele obtiver um reconhecimento
social que ateste seu valor produtivo e lhe garanta uma dignidade
de ser, e não a aviltante condição de sentir-se
um mero utilitário. Legitimado pelo sistema no qual se encontra
inserido, esse sujeito se inventa potente e criativo e sua vida
ganha um valor, fazendo-o senti-la prazerosa de ser vivida.
Agora, se o pacto social não é respeitado, e o sujeito
não se ressarci de alguma maneira, pelo esforço e
renúncia a que teve que se submeter na expectativa de ser
incluído no complexo cultural, ele naturalmente se sentirá
desobrigado do compromisso com o sistema que não lhe reconhece.
Assim, nas organizações injustas e arbitrárias
envolvidas na distribuição de poderes e riquezas,
seus membros não vêem sentido em preservar seu habitat,
tudo o que o cerca, e muito menos desenvolver algum respeito e amor
pelo seu próximo. Se sua própria existência
não tem um valor, se o sujeito se sente ele próprio
um produto barato e descartável, sua conduta predatória
não deve causar qualquer estranheza. Ele está simplesmente
devolvendo ao mundo o que dele recebe. Sem culpa, faz uso de uma
moral selvagem e individual (olho por olho, dente por dente), totalmente
dissociada de uma ética. Ética que não se construiu
porque não havia o que preservar nem dentro nem fora.
Nos sistemas impiedosamente autoritários ainda que
ardilosamente camuflados por uma fachada liberal ou neo ,
os ideais, matéria prima de são feitos os sonhos,
não têm espaço para se inserir. Se o sujeito
estiver impedido, então, mediante a ausência de amor,
de interferir na realidade da qual faz parte, a ele não restará
mais que o ódio para honrar o seu lugar no mundo.
A violência, então instaurada em sua radicalidade,
pode se constituir num recurso, utilizado para deixar alguma marca
inscrita, mesmo que sangrenta. Isto, ainda que um arremedo de sucesso
implique o sacrifício de sua própria existência,
com o conseqüente encurtamento de sua passagem pela Terra em
nome de uma causa o mais das vezes banal. Escapa-se, assim, do constrangedor
anonimato de uma vida fútil, sem sentido e sem nenhuma graça.
Diante da perspectiva de uma miserável mesmice, a organização
ou a adesão a uma causa qualquer se torna um objetivo, e
este sujeito que não tem mais nada que o estruture
como ser desejante num mundo ao qual ele não se sente pertencendo
verdadeiramente a ela se agarra. Na falta de uma alternativa,
só lhe resta abraçar esta causa sinistra, e até
morrer por ela se for o caso. Esse sujeito é movido pelo
orgulho de se presentificar desta maneira no mundo, em que escapar
do perigo, a todo o momento, passa a se constituir na mola-mestra
de sua desprezível insignificância. Ele insiste em
sua trajetória de aventuras, mesmo que extremamente desesperançado,
e ainda que não acredite na possibilidade em qualquer mudança
substancial. Ou mesmo quando já perdeu de vista a verdadeira
razão de sua sede de vingança. Talvez só para
se sentir real, autor de um destino ao qual aspira por bem ou por
mal se apropriar. Ainda que assustadora, nesta forma sua de existir,
ele pensa poder através dela alcançar, por fim, alguma
legitimidade ...
Rachel Sztajnberg
Membro titular da SPCRJ
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