O número 21 dos Cadernos de Psicanálise e o tema da violência

Tive o privilégio, em função do convite que me foi feito pelo Editor para apresentar uma resenha ao vivo, de conhecer com antecedência este número dos Cadernos de Psicanálise. Tive sorte ao ter a obrigação de conhecê-lo minuciosamente em primeira mão, e posso garantir que ele vale a pena.
A despeito da “violência” que cometi comigo mesma, ao aceitar a incumbência de mergulhar tão profundamente nesse pântano inóspito da condição de ser humano (tornar-se humano implica um esforço monumental, uma violência contra sua própria natureza), ainda assim posso dizer com toda segurança que escapei ilesa. Saí inteira e fortalecida pelo orgulho de pertencer a uma Instituição que produz uma edição tão primorosa e de tanto vigor.
Além disso, cabe destacar a adequação de se debater o problema da violência, sobretudo na atual conjuntura, pois fazê-lo implica um compromisso do qual um psicanalista não pode eximir-se, sob o risco de trair a própria proposta que escolheu honrar. Freud, nossa referencia exemplar, não se furtou a deter-se neste tema, mesmo tendo que pagar todos os preços pela arrojada missão a que se determinou.
O desafio hoje, talvez seja ainda maior do que nunca, já que até então não se teve tanto acesso a informações que são veiculadas de forma excessiva e intrusiva a ponto de acarretar escassez de introspecção no indivíduo contemporâneo. O bombardeio do progresso em avalanche soterra com freqüência nossa limitada capacidade de dar conta de tanta invasão do novo, dificultando-se assim, efetivamente, sua metabolização. No mais das vezes engolimos, sem elaboração, sem crítica e sem filtro, tudo que criamos supostamente para nosso bem estar. Não temos tempo sequer de avaliar o que produzimos a nosso favor e qual o ônus dessa aquisição, e em que ela imputa um tributo maior do que damos conta de pagar.
Só para contribuir com um exemplo, ocorre-me a recente exposição sobre a China, que tive a feliz oportunidade de visitar na FAAP, em São Paulo. Esta exposição foi importada do Museu Guimet de Paris, e abrange desde a China Imperial até a China Contemporânea. No seu movimento final, ela apresenta uma coleção de obras atuais de artistas plásticos comprometidos com a denúncia dos graves efeitos da destruição célere de uma cultura milenar, pulverizada pela invasão implacável do Ocidente e de seus valores de referência. Como tive a oportunidade de testemunhar in loco essa transformação avassaladora que me deixou atônita (e olha que eu nem cheguei ao Japão, onde, dizem, a derrocada é ainda mais atordoante), me ocorre pensar na importância de refletirmos sobre o que significa fazer desaparecer de uma hora para outra uma tradição milenar que sequer tem a possibilidade de conviver com os novos elementos, sendo que o que é relíquia é arrastado para o limbo, vencido pelo gigante e voraz sedutor alienígena. Assim, uma cultura é violentamente aniquilada pela outra, quase sem que se perceba o teor de destruição inserido no processo transformador. A não ser por uns poucos, mais sensíveis, que têm a possibilidade de tomar uma certa distância e reconhecer a devastação que transita de uma forma tão sutil e insidiosa que mal pode ser reconhecida, já que encoberta pela máscara de uma nova ilusão, que Freud certamente denunciaria como fez com a religião. A ciência e a tecnologia, como o sabemos, portam em seu bojo novos deuses que clamam pela idolatria.
O compromisso do analista é fazer pensar o impensável, e agora mais do que nunca, concentrar-se numa tarefa que o desafia. Sabemos todos que vendemos um produto anacrônico, pouco compatível com o imediatismo e a materialidade que se propaga à nossa volta, mas nossa “mercadoria” ainda é do interesse daqueles que sofrem e aceitam um recurso artesanal como o nosso, pois que ainda é eficiente. Não como droga milagrosa, mas como saída da alienação vigente e possibilidade de reconhecimento de si, do que lhe pertence e do que é do outro, de forma que a vida, a nossa e a do próximo, a da Terra, da Galáxia, do Universo possam ser sentidas como valendo a pena, a despeito do preço que temos de pagar por tudo isso.
Vamos então aos Cadernos, que me comprometi a apresentar a vocês. Os artigos em debate iniciam a publicação. SUELENA WERNECK PEREIRA, um tesouro do nosso acervo institucional, apresenta com muito brilho aquilo que melhor domina: a obra freudiana. Seu texto, Mal-estar, pulsão de morte, destrutividade: a dor de ser humano, percorre com desembaraço a Metapsicologia, para, a partir do polêmico conceito da pulsão de morte, questionado até mesmo dentro das fronteiras da própria Psicanálise, abordar o mal-estar e indicar possíveis explicações para a destrutividade humana. Refaz com acuidade o caminho da 1ª para a 2ª teoria pulsional e demonstra que, para começo de conversa, a violência é ter de ser humano, por implicar a renúncia ao prazer e à felicidade, na barganha pela segurança que o homem civilizado optou por privilegiar. Constituído no conflito, conseqüentemente, o homem tornou-se mais belicoso que os outros animais, que, como dizia Freud, seriam preferíveis porque menos complexos e menos cindidos que os humanos. Estes, cruéis por questões de sobrevivência, como seriam os selvagens originariamente, apesar de carecerem da maldade potencializada no humano. Maldade essa que, seguramente, exprime a vingança do homem contra a sociedade que o oprime. Tanto mais que a segurança pretendida é, de todo modo, precária. A autonomia dessa agressividade, exposta na 2ª tópica, que o sujeito ou volta para o eu ou para o objeto a fim de tentar dar conta do desamparo que a pulsão de domínio visa driblar, é responsável pela violência disseminada na cultura. SUELENA questiona se os sujeitos contemporâneos não se vêem com um débito em sua potência erótica de ligação, facilitando o desvio dos objetivos a favor das pulsões de morte. A violência voltada para o outro também o atinge pela ruptura dos laços com o grupo. A promessa de infinitude, antes sustentada na religião, e agora via o culto às drogas, potencializa o “nem morrer, nem sofrer”, marginalizando o desamparo e o mal-estar como se fosse possível privar o homem dos elementos constitutivos de sua subjetividade. Nossa “salvação” estaria, assim, diz SUELENA finalmente, numa abordagem que inclua e não exclua esses aspectos fundamentais do ser humano.
É também pela via do “Déficit erótico da contemporaneidade” que CARLOS ALBERTO PLASTINO contribui com seu rico artigo para que pensemos o retrocesso político e social e o grave problema da violência na sociedade contemporânea.
Abordando o ataque terrorista de 11 de setembro como um ato perverso que não pode ser pensado isoladamente, PLASTINO aponta haver uma concepção racionalista do real e do homem, centrada num paradigma moderno que sustenta um projeto de dominação antropocêntrico, e que é indissociável da redução da natureza a uma máquina estúpida e determinada.
As perspectivas dualistas que compõem esse modelo estruturam uma hegemonia que separa o ser humano da natureza, o corpo do psiquismo e o sujeito do objeto, impondo a exclusividade de apenas uma das modalidades da percepção do real e de sua apreensão. Plastino indica uma 1ª fase da modernidade que teria sido regida pela onipotência humana que visava tudo poder conhecer, mais adiante substituída por uma 2ª fase, marcada pela onipotência de tudo fazer. Realmente, é o privilégio do ato sobre a reflexão que nos ocupa e preocupa enquanto pensadores da contemporaneidade. Felizmente, o autor nos propõe uma saída, um novo humanismo construído sobre o paradigma da potência e da prudência, que afirmaria a complexidade da forma de ser do real e de nós mesmos, por oposição ao desejo de dominação. Forma-se, então, uma migração do absoluto para o relativo, geradora de solidariedade entre humanos, que é estabelecida em relação com a natureza e o cosmos, podendo ser dessa forma resgatada a valorização dos afetos tão desprezados pelo racionalismo. Assim, somos provocados pela assertiva de que a Psicanálise teria o dever de dizer alguma coisa sobre isso.
Como SUELENA, PLASTINO rastreia a metapsicologia freudiana até à 3ª síntese e destaca o “primado da afetividade”. O caráter irredutível das exigências de Eros, apontado na 2ª teoria pulsional, impõe-se como um ganho teórico fundamental, mas PLASTINO polemiza a afirmação de um “automatismo” dessa dinâmica, considerando-o uma expressão de inexorabilidade que carece de uma crítica mais cuidadosa em função de seu fundamento determinista. O Autor marca uma notória diferença entre afirmar a dinâmica erótica como exigência do ser natural do homem e a postulação de que dita dinâmica opera autonomamente e independente dos processos de constituição das subjetividades. Para ele, é o paradigma da complexidade que vai permitir pensar fecundamente esta questão crucial, para além de um dualismo constitutivo. Autores pós-freudianos, como Winnicott, trouxeram importantes desenvolvimentos que enriqueceram esta perspectiva a partir de uma dinâmica afetiva ancorada numa forma de ser, que, contudo, só vem a ser e desenvolver suas potencialidades no contexto das relações intersubjetivas que se criam.
Passando pelo sentimento inconsciente de culpa, apontado por Freud como o inevitável maior problema da vida cultural, onde então o papel de Eros seria substancial na constituição subjetiva e responsável maior pela sociabilidade humana, PLASTINO entende as “novas patologias” como sendo carentes justamente desse potencial. Alude à expansão do narcisismo nas relações interpessoais e ao desconhecimento da alteridade como elementos formadores das discriminações de gênero, raça, classe e nacionalidades, que dotam a crise contemporânea de sua assustadora extensão e profundidade. PLASTINO chega, então, a uma compreensão contemporânea da natureza como um organismo vivo e auto-poiético, posição que se confronta diametralmente com a fixidez e o determinismo da teorização freudiana que considera as “pulsões primordiais” como dados não modificáveis da natureza. O que a Psicanálise nos mostra a respeito de nossos afetos – nossa necessidade vital de erotismo e intersubjetividade – pressupõe uma valoração ética dos laços sociais tão esgarçados hoje pela disseminação da violência. O Autor propõe, por fim, uma conjugação de esforços dos diferentes saberes para pensar esse complexo.
Esta edição dos Cadernos, seus Editores naturalmente, nos propõe pensar a violência desde uma perspectiva polifacetada e multidisciplinar, de modo que foi convidada uma teóloga, MARIA CLARA LUCCHETI BINGEMER, para apresentar sua colaboração num artigo sobre Religião e fanatismo. Feliz encomenda e afortunado retorno. A Autora parte da concepção do ser humano pático e pascal, passional e de passagem, e sustenta a tese de que a provisoriedade repudiada é fortemente instigada e compensada pela “sedução do Sagrado”. Por essa via se constrói a alteridade divina em seu mistério do outro que envolve e apaixona com sua beleza e sua diferença, e com o qual se busca a União. União desejada, mas também temida. MARIA CLARA adverte sobre a inutilidade do Sagrado que nada acrescenta à vida biológica, à longevidade e ao prazer sensível. Ao contrário, o Sagrado exige até um despojamento que viabilize uma entrega total. Mesmo assim, a popularidade desse Deus permanece como um invisível e inútil objeto de desejo, porque o drama de se sentir frágil, vulnerável é apaziguado por essa união com o Sem-Limites. Aí começa, nos diz MARIA CLARA, o risco de a religião transformar-se em fanatismo e degenerar em violência.
O fanático é um apaixonado que adere cegamente a uma doutrina. Dominado por intolerância e radicalismo, não se permite contemplar coisa alguma a não ser com os olhos da morte. O Deus único das religiões monoteístas – cristianismo, judaísmo e islamismo – carregam por princípio uma discriminação, pois a crença num Deus único implica a recusa de todos os outros. Quem é devoto dos demais, portanto, adora o nada. Assim, se Deus é o meu, o do outro é o Diabo. No 11 de Setembro pudemos testemunhar com horror a grandiosidade da luta entre Deuses, novas versões da Inquisição, das Cruzadas e de outras guerras religiosas, mais sofisticadas devido ao progresso. O fanatismo não é, assim, privilégio do fundamentalismo muçulmano, e ainda persiste a despeito dos movimentos macro - ecumênicos presentes na atualidade. Sua radicalidade aponta, claramente, para a recusa do diferente.
A cultura americana seria obrigada, depois do atentado, a rever ilusões cultivadas com a maior desenvoltura, como a negação da morte levada às últimas conseqüências naquele sistema, à qual se contrapôs o discurso da Al Quaeda: “se vocês têm milhões de jovens ansiosos para viver, nós dispomos de outro tanto prontos para morrer”. A morte na Guerra Santa é justamente a plenitude da vida, diversamente do que se veicula no mundo capitalista, onde o ápice do prazer está posto na vida e no consumo imediato do material.
Assim, evidenciam-se proposições incompatíveis que se digladiam por não reconhecerem os valores do outro. Só visam seu aniquilamento, porque sustentam a prevalência do Um. Toda violência, afirma MARIA CLARA, é uma ameaça de morte, e só um jogo de forças e energias que se limitem e se equilibrem umas às outras pode garantir a vida e a dignidade humanas. Para além do julgar, poder olhar, ver e escutar se constituem no que MARIA CLARA nos propõe como uma dimensão ética. Apreciação sensata e pertinente, mas que sabemos desafiar o humano. Freud, ao enunciar o rochedo da castração e sua irredutibilidade, anunciou claramente seu ceticismo em relação a essa transposição.
A socióloga JACQUELINE PITANGUY foi responsável pela abordagem da violência de gênero, tecendo considerações sobre as variáveis sociais que afetam a demarcação do campo do delito passível de punição a partir do lugar da mulher nos diferentes desenhos culturais, históricos, políticos e religiosos. Permeado pela ênfase no problema do narcisismo das pequenas diferenças, seu artigo argumenta que a discriminação da mulher, a despeito das lutas pelos direitos reconhecidos, ainda deixa traços acentuados, sobretudo no terreno da saúde. É aí então, sobre o corpo, que a mulher continua sofrendo as conseqüências mais devastadoras de um olhar que a negligencia como sujeito e a condena à mera condição de objeto de desejo.
Por fim, nosso colega LUIZ RICARDO PRADO OLIVEIRA, responsável maior por essa publicação, ocupou-se com a violência que nos é tão familiar, essa que se respira nas Instituições Psicanalíticas e entre seus pares. Alude à banalização de uma violência que é incrementada pelo avanço tecnológico e destaca seu poder de produzir alienação.
Reportando-se a um conflito recente nos “intestinos” da estrutura da Psicanálise francesa instituída, o Autor denuncia o caráter dogmático e religioso que marca essas “centrais” de saber. Os “restos” não dissolvidos da transferência nas análises dos analistas fazem de sua devoção à filiação um recurso defensivo com relação ao desamparo e à responsabilidade de cada psicanalista em sua função de transmissão. Onde o imaginário domina sobre o simbólico, os fantasmas persecutórios se disseminam. A submissão presente na idolatria impede o livre trânsito da diversidade das idéias, inibindo uma combatividade que é saudável por ser produtora de uma criatividade que se renova, no lugar de condenar à perpetuação sinistra do instituído. Neste sentido, que deveria se constituir como traços identificatórios formadores de uma identidade profissional, pela via da pertinência à Instituição, corre o risco de resultar num mimetismo alienante que cobra, pela ação massacrante de um superego severo e perseguidor, o recalcamento do confronto de idéias permeado pela diferença. Tudo que sobra, então, nada mais é do que indiferença e intelectualização, promotores exclusivamente da produção do mesmo, o que empobrece o vigor do pulsar de um saber que é elaborado em processo, tornando-se, desta forma, ameaçada a continuidade da pesquisa tão indispensável à Psicanálise.
Seguem-se os artigos selecionados pelo conselho consultivo da Revista, encabeçados pela sensível reflexão que CID MERLINO faz sobre o que chamou de Homens Deserdados. A partir de uma cena carregada de violência e veiculada pela mídia, Cid tece preciosas contribuições para pensar o mal-estar contemporâneo. Para entender a solidão vigente, Cid rastreia a gênese do Supereu na metapsicologia freudiana, sua função na construção da alteridade, para ressaltar a importância do outro na constituição do sujeito, em seu campo de desejo e em sua inserção no social. Aborda as vicissitudes do desmantelamento dessas referências em vigência, para sinalizar a marca da presença do outro enquanto ausência, sendo dessa forma cunhado um ressentimento que é derivado da carência de um investimento amoroso que viabilize a sustentação do sujeito e a positivação de suas faltas. Porque seu texto aponta para a não integração das funções do Supereu, que resulta na rigidez da exigência de um só gozo e na imposição sádica tão difundida hoje em dia, já que não alimentada por ideais referidos aos laços sociais e do respeito à alteridade, fomos inevitavelmente levados a pensar na fragilidade do Ideal do Eu. A ausência de sua função moderadora e a falta de um apelo ético fundamental, que se anteponham às imposições radicais da duvidosa moral atual, comprometem em muito as novas subjetividades.
PATRÍCIA SACEANU nos brinda com um texto provocativo que discute o estatuto do estranho na atualidade. Pela via do estrangeiro gerador do movimento ambíguo de atração e repulsa, PATRÍCIA nos põe a pensar o ódio à diferença e a irredutibilidade dos impulsos agressivos. Pensa também nos canais possíveis, para que essas forças não desemboquem necessariamente numa explosão bélica, bem como na intervenção de instâncias simbólicas por onde possam fluir a violência e a crueldade, que, para além de mecanismos de defesa, constituem-se em instrumentos e causa de gozo. A figura do “bode expiatório” está dentro desse contexto. Por aí também se acessa o racismo, cujas raízes, obviamente, são idênticas ao fanatismo mencionado anteriormente. Se aqui de novo, o triunfo do Um acarreta necessariamente o destrutivo, se só na diversidade se constrói, me ocorre ser apropriado formular uma interrogação instigante: onde fica a globalização nisso tudo, com sua envolvente proposta de homogeneização? Não teríamos que pensar também a produtividade benigna dos conflitos, dos quais emana sempre o novo que move mais questões e a reinvenção de outras respostas? A AUTORA finaliza nos remetendo à possibilidade do encontro do sujeito com sua própria estranheza, a partir da qual, quiçá, a estranheza do outro possa ser mais bem tolerada.
A violência pulsional é apresentada por PAULO CESAR JUNQUEIRA, num texto visceral que escancara a sexualidade em suas múltiplas facetas. Surpreendendo o leitor pela densidade de um discurso coloquial eivado de todas as construções teóricas possíveis do movimento da economia libidinal no humano, PAULO transmite com muita graça e contundência toda a fúria impregnada na luta pela posse, absoluta e definitiva, do objeto de desejo. Busca desenfreada de um encontro na verdade impossível, o que provoca o desejo é justamente a inviabilidade de sua plena realização, correndo atrás daquilo que nunca vai ser encontrado. Destaca-se a polimorfia da sexualidade humana, em que uma complexidade rege o comportamento orientando o homem nas mais variadas direções. Sexualidade só é simples para bicho, “é duro ser menino”, “é duro ser menina”, árida travessia, eivada de uma grande exigência de renúncias, em que é formado um abismo entre o eu social e o eu do desejo. Sexualidade que só se torna possível e prazerosa quando se desiste do objeto permanente e total. Mas sempre, verdadeiramente sempre perigosa; de dar medo, muito medo.
EDUARDO LEAL CUNHA, nosso colega do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, enriquece a edição com os temas da confissão, da singularidade e do assujeitamento. Tomando Foucault e Reik como suas referências teóricas, o Autor trata das relações entre sujeito e verdade e o lugar do sexual na enunciação e construção do si mesmo, bem como da implicação necessariamente existente entre afirmação de si e consciência moral. A situação analítica, para além do deciframento e da decodificação da verdade do sujeito, é pensada partir do jogo das intensidades que percorrem a cena confessional. Nesse cenário, o recalcado se expressa, o interdito é enunciado e desejo e lei se articulam. Gratifica-se, ao mesmo tempo, a moção pulsional e a necessidade de punição, aplacando a angústia (culpa) despertada pela transgressão. Novamente, é destacado o papel do Supereu ao atuar em socorro do Eu soterrado entre as demandas do mundo externo e a pressão provocada pelas moções pulsionais. A confissão implica também uma demanda de amor e de reconhecimento pelo outro. Por fim, EDUARDO nos remete ao assujeitamento necessário que atravessa a subjetivação, mas numa articulação que também inclui resistência e enfrentamento. Aponta, assim, o equilíbrio difícil e delicado das intensidades na produção de um lugar limite entre a submissão e a afirmação de si, entre culpa e amor e entre obediência e desejo.
A arquitetura da violência é desenhada com muito esmero no artigo de JUNIA DE VILHENA, em que o homem é apontado como o único ser vivo que planeja sua destruição. Destacando a intenção de destruir como a marca de uma violência que é banalizada num discurso de resignação, e a existência de um “instintivo” que não diferencia agressividade e violência, JUNIA empenha-se em reconstituir a dimensão criadora da agressividade, considerando-a diversa das marcas de desrespeito à lei e de destruição do poder, presentes no caso da violência. Remetendo-se ao sujeito adaptado das culturas do narcisismo, a AUTORA articula a lógica do consumo à lógica impositiva do Supereu; mais uma vez ele e sua força determinante respondendo pelo imperativo do gozo que submete o sujeito, quando são desconsideras a lei e a ética. Lei que, quando instituída, além de ser dura inclui o amor e a justiça, barrando a imersão no pânico, no terror e na morte, bem como no obscurantismo das paixões sem freio.
Sintoma, gozo e final de análise são os pontos enigmáticos da articulação construída por MARIA DAS GRAÇAS ISSA, à luz da teorização lacaniana, para pensar os impasses da travessia da fantasia e a disjunção do sujeito e do objeto.
A violência e o abuso sexual infantil são apreciados por MARIA DE FATIMA PINHEIRO JUNQUEIRA, a partir da noção de desamparo e do conceito de violência simbólica introduzido por Bourdieu. Forma-se aí um complô silencioso, em que o poder é exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. Poder esse que se exerce sobre os corpos de forma insidiosa, legitimando uma dominação do adulto onde o abuso é ingenuamente entendido pela criança como troca no jogo dos afetos. Está implícito, aqui, um ato de tentativa de anulação do sujeito, mediante ataques a sua vulnerabilidade. Para além do traumatismo no campo do sexual, a angústia então experimentada é de morte. Chamando a atenção para a experiência clínica, a AUTORA adverte para o cuidado de não ser aí repetida a invasão, ao não se reconhecer a diferença existente entre o momento em que o sujeito tenta esquecer para fugir reativamente ao trauma e aquele em que o esquecimento implica uma tentativa de superação da questão mediante a abertura de um espaço com vistas à reconstrução da própria história, independente do personagem que lhe fora designado pelo dominador. Se encaminhado de outra maneira, o processo analítico surge como o espaço potencial da invenção de um sujeito que ainda não tinha podido emergir.
Acercando-se do tema por um vértice que ainda não tinha sido considerado até aqui, nosso colega, JOSÉ FRANCISCO DA GAMA E SILVA, toma a imagem como pesadelo e violência, propondo uma elaborada reflexão que inclui a estética como objeto de investigação. Arte e Psicanálise se entrelaçam nesse artigo, num exercício acurado de leitura de imagens pictográficas do horror a partir de formas expressivas e sutis de comunicação. Perceber um sentido possível nas explosões do grotesco e do sinistro, que remetem ao nosso núcleo vital arcaico, e buscar uma linguagem que sirva de elemento mediador eficiente entre um observador e o objeto, é a proposta que nos faz o Autor. Cria-se assim um terceiro elemento que emana desse encontro, de sorte que novos sentidos e significações possam se dar. O artigo nos conduz a um provocativo passeio por Pollock e Picasso, apresentando também um caso clínico, sendo que tudo conflui para serem pensados os desencontros e traumas ocasionados na relação original e as relações dos mesmos com as agonias e terrores que atravessam a experiência de existir.
O “Homem dos Ratos” é a referência de que LUCIA BEATRIZ PITANGUY SAMPAIO lança mão para falar do sujeito violentado pela própria fantasia. Compondo um cenário teatral, a AUTORA cria um romance cuja tônica dominante é a compulsão que determina todo o pensar e o ser no mundo. Passeia com desenvoltura pela neurose obsessiva, numa forma lúdica e absolutamente original, evidenciando todo o tormento que decorre da erotização do pensamento do sujeito, e que não lhe dá nenhuma trégua. Enredado pelas dúvidas que minam sua percepção e clamam por uma descarga barrada pelas instâncias superiores, Paul, o personagem de Freud e de LUCIA, experimenta a instrumentalização do afeto pela via da transferência na análise, oportunidade em que esta funciona, então, como um operador fundamental na organização menos caótica e favorecedora de um funcionamento mais harmonioso. A dominância de Eros é destacada mais uma vez, garantindo a paz possível na redução dos conflitos ao mínimo indispensável.
Já MARIA CECILIA FIGUEIRÓ SILVEIRA optou por um caso clínico de paranóia, para construir, à luz da metapsicologia freudiana e com ênfase no movimento pulsional, algumas hipóteses quanto ao conteúdo delirante de ser objeto de espancamento dos pais, fantasia explorada por Freud em “Bate-se numa criança”. Reportando-se às duas funções constituintes do psiquismo, contenção e ligação, a AUTORA identifica a transferência como um “aparelho auxiliar de contenção” do mundo psíquico do paciente. O que se espera é que a partir desse instrumento possam ser refeitas algumas tramas originais gravemente comprometidas e que novos arranjos menos destrutivos e terroríficos possam conferir ao sujeito perpassado pela análise, e a seus objetos, um lugar mais digno e menos degradado. Desta forma, são constituídas melhores condições com vistas ao seu estar no mundo.
Finalmente, temos o artigo de DANIEL KUPERMANN sobre a identificação sublimatória, propondo a diferenciação metapsicológica desta, da modalidade narcísica de identificação apontada por Freud. Partindo de relatos clínicos dos efeitos psíquicos provenientes da morte factual do pai e reportando-se à centralidade da temática paterna na obra freudiana a partir dos anos 20, o AUTOR especula sobre o efeito de desamparo que a ausência do pai suscita, e que estaria manifesto mesmo nas subjetividades melancólicas e masoquistas tão visíveis na contemporaneidade. Depois de estabelecer um paralelo entre a clivagem traumática formulada no desmentido de Ferenczi e a identificação narcísica de Freud, aponta para as vicissitudes no caminho da despossessão da figura paterna e a conseqüente perda das referências egóicas já consolidadas, para que seja alcançada a libertação do masoquismo secundário derivado dessa dependência patológica. A magnífica Carta ao Pai, de Kafka, em toda sua contundência, serve de referência a essa vicissitude. O espaço analítico figura como lugar privilegiado para a promoção desse deslizamento que oferece ao sujeito a possibilidade de reinventar-se, livrando-o então da submissão mortífera.
Dos Cadernos constam ainda cinco resenhas de publicações recentes valiosas e duas entrevistas de interesse para nossa área de pesquisa.
Gostaria de compartilhar agora com vocês o que experimentei ao fim deste trabalho que me foi designado: um sentimento comovedor por ter sido testemunha de tanto esforço vindo de distintas direções, e de diversos enfoques elaborados para tentar ir mais além na missão quase impossível de compreender um pouco mais essa árida travessia do processo de humanização. Processo do outro, do qual somos observadores, mas nosso também, já que nós analistas não estamos excluídos tampouco dessa condição. Pensei no que isso significa, em contraposição à conturbada realidade dos tempos vigentes, quando mais uma vez, talvez mais do que nunca, convivemos com constantes ameaças a nossa sobrevivência e a daqueles que nos são caros. Sobretudo agora que é tão difícil sustentar a esperança e tão fácil sucumbirmos às desilusões que constantemente nos acossam. E ainda assim, muitos como nós e tantos outros continuam tentando.
A despeito da confrontação com os impiedosos ataques destrutivos, tanto no espaço público como no fatídico 11 de setembro, ou ainda, quando mais perto de nós, como no episódio do ônibus 174, como também no plano privado, com os recentes assassinatos familiares de São Paulo que escancararam a irredutibilidade do destrutivo no humano, mesmo assim, continuamos tentando, porque não é para desistir mesmo. Ainda que seja impossível, há que seguir tentando. A prova de que vale a pena está aí; essa publicação bem o demonstra: os destinos da pulsão com toda sua intensidade e sua carga impetuosa podem ganhar vias sublimatórias e fluir no sentido de uma produção combativa e de uma militância amorosa. Porque é por amor que a gente pensa e escreve, e por isso aceitamos nossa infelicidade banal e pleiteamos, se possível, mais prazer do que dor na aventura de existir.


Rachel Sztajnberg
Membro efetivo da SPCRJ