Tive o privilégio, em função do convite
que me foi feito pelo Editor para apresentar uma resenha ao vivo,
de conhecer com antecedência este número dos Cadernos
de Psicanálise. Tive sorte ao ter a obrigação
de conhecê-lo minuciosamente em primeira mão, e posso
garantir que ele vale a pena.
A despeito da “violência” que cometi comigo
mesma, ao aceitar a incumbência de mergulhar tão
profundamente nesse pântano inóspito da condição
de ser humano (tornar-se humano implica um esforço monumental,
uma violência contra sua própria natureza), ainda
assim posso dizer com toda segurança que escapei ilesa.
Saí inteira e fortalecida pelo orgulho de pertencer a uma
Instituição que produz uma edição
tão primorosa e de tanto vigor.
Além disso, cabe destacar a adequação de
se debater o problema da violência, sobretudo na atual conjuntura,
pois fazê-lo implica um compromisso do qual um psicanalista
não pode eximir-se, sob o risco de trair a própria
proposta que escolheu honrar. Freud, nossa referencia exemplar,
não se furtou a deter-se neste tema, mesmo tendo que pagar
todos os preços pela arrojada missão a que se determinou.
O desafio hoje, talvez seja ainda maior do que nunca, já
que até então não se teve tanto acesso a
informações que são veiculadas de forma excessiva
e intrusiva a ponto de acarretar escassez de introspecção
no indivíduo contemporâneo. O bombardeio do progresso
em avalanche soterra com freqüência nossa limitada
capacidade de dar conta de tanta invasão do novo, dificultando-se
assim, efetivamente, sua metabolização. No mais
das vezes engolimos, sem elaboração, sem crítica
e sem filtro, tudo que criamos supostamente para nosso bem estar.
Não temos tempo sequer de avaliar o que produzimos a nosso
favor e qual o ônus dessa aquisição, e em
que ela imputa um tributo maior do que damos conta de pagar.
Só para contribuir com um exemplo, ocorre-me a recente
exposição sobre a China, que tive a feliz oportunidade
de visitar na FAAP, em São Paulo. Esta exposição
foi importada do Museu Guimet de Paris, e abrange desde a China
Imperial até a China Contemporânea. No seu movimento
final, ela apresenta uma coleção de obras atuais
de artistas plásticos comprometidos com a denúncia
dos graves efeitos da destruição célere de
uma cultura milenar, pulverizada pela invasão implacável
do Ocidente e de seus valores de referência. Como tive a
oportunidade de testemunhar in loco essa transformação
avassaladora que me deixou atônita (e olha que eu nem cheguei
ao Japão, onde, dizem, a derrocada é ainda mais
atordoante), me ocorre pensar na importância de refletirmos
sobre o que significa fazer desaparecer de uma hora para outra
uma tradição milenar que sequer tem a possibilidade
de conviver com os novos elementos, sendo que o que é relíquia
é arrastado para o limbo, vencido pelo gigante e voraz
sedutor alienígena. Assim, uma cultura é violentamente
aniquilada pela outra, quase sem que se perceba o teor de destruição
inserido no processo transformador. A não ser por uns poucos,
mais sensíveis, que têm a possibilidade de tomar
uma certa distância e reconhecer a devastação
que transita de uma forma tão sutil e insidiosa que mal
pode ser reconhecida, já que encoberta pela máscara
de uma nova ilusão, que Freud certamente denunciaria como
fez com a religião. A ciência e a tecnologia, como
o sabemos, portam em seu bojo novos deuses que clamam pela idolatria.
O compromisso do analista é fazer pensar o impensável,
e agora mais do que nunca, concentrar-se numa tarefa que o desafia.
Sabemos todos que vendemos um produto anacrônico, pouco
compatível com o imediatismo e a materialidade que se propaga
à nossa volta, mas nossa “mercadoria” ainda
é do interesse daqueles que sofrem e aceitam um recurso
artesanal como o nosso, pois que ainda é eficiente. Não
como droga milagrosa, mas como saída da alienação
vigente e possibilidade de reconhecimento de si, do que lhe pertence
e do que é do outro, de forma que a vida, a nossa e a do
próximo, a da Terra, da Galáxia, do Universo possam
ser sentidas como valendo a pena, a despeito do preço que
temos de pagar por tudo isso.
Vamos então aos Cadernos, que me comprometi a apresentar
a vocês. Os artigos em debate iniciam a publicação.
SUELENA WERNECK PEREIRA, um tesouro do nosso acervo institucional,
apresenta com muito brilho aquilo que melhor domina: a obra freudiana.
Seu texto, Mal-estar, pulsão de morte, destrutividade:
a dor de ser humano, percorre com desembaraço a Metapsicologia,
para, a partir do polêmico conceito da pulsão de
morte, questionado até mesmo dentro das fronteiras da própria
Psicanálise, abordar o mal-estar e indicar possíveis
explicações para a destrutividade humana. Refaz
com acuidade o caminho da 1ª para a 2ª teoria pulsional
e demonstra que, para começo de conversa, a violência
é ter de ser humano, por implicar a renúncia ao
prazer e à felicidade, na barganha pela segurança
que o homem civilizado optou por privilegiar. Constituído
no conflito, conseqüentemente, o homem tornou-se mais belicoso
que os outros animais, que, como dizia Freud, seriam preferíveis
porque menos complexos e menos cindidos que os humanos. Estes,
cruéis por questões de sobrevivência, como
seriam os selvagens originariamente, apesar de carecerem da maldade
potencializada no humano. Maldade essa que, seguramente, exprime
a vingança do homem contra a sociedade que o oprime. Tanto
mais que a segurança pretendida é, de todo modo,
precária. A autonomia dessa agressividade, exposta na 2ª
tópica, que o sujeito ou volta para o eu ou para o objeto
a fim de tentar dar conta do desamparo que a pulsão de
domínio visa driblar, é responsável pela
violência disseminada na cultura. SUELENA questiona se os
sujeitos contemporâneos não se vêem com um
débito em sua potência erótica de ligação,
facilitando o desvio dos objetivos a favor das pulsões
de morte. A violência voltada para o outro também
o atinge pela ruptura dos laços com o grupo. A promessa
de infinitude, antes sustentada na religião, e agora via
o culto às drogas, potencializa o “nem morrer, nem
sofrer”, marginalizando o desamparo e o mal-estar como se
fosse possível privar o homem dos elementos constitutivos
de sua subjetividade. Nossa “salvação”
estaria, assim, diz SUELENA finalmente, numa abordagem que inclua
e não exclua esses aspectos fundamentais do ser humano.
É também pela via do “Déficit erótico
da contemporaneidade” que CARLOS ALBERTO PLASTINO contribui
com seu rico artigo para que pensemos o retrocesso político
e social e o grave problema da violência na sociedade contemporânea.
Abordando o ataque terrorista de 11 de setembro como um ato perverso
que não pode ser pensado isoladamente, PLASTINO aponta
haver uma concepção racionalista do real e do homem,
centrada num paradigma moderno que sustenta um projeto de dominação
antropocêntrico, e que é indissociável da
redução da natureza a uma máquina estúpida
e determinada.
As perspectivas dualistas que compõem esse modelo estruturam
uma hegemonia que separa o ser humano da natureza, o corpo do
psiquismo e o sujeito do objeto, impondo a exclusividade de apenas
uma das modalidades da percepção do real e de sua
apreensão. Plastino indica uma 1ª fase da modernidade
que teria sido regida pela onipotência humana que visava
tudo poder conhecer, mais adiante substituída por uma 2ª
fase, marcada pela onipotência de tudo fazer. Realmente,
é o privilégio do ato sobre a reflexão que
nos ocupa e preocupa enquanto pensadores da contemporaneidade.
Felizmente, o autor nos propõe uma saída, um novo
humanismo construído sobre o paradigma da potência
e da prudência, que afirmaria a complexidade da forma de
ser do real e de nós mesmos, por oposição
ao desejo de dominação. Forma-se, então,
uma migração do absoluto para o relativo, geradora
de solidariedade entre humanos, que é estabelecida em relação
com a natureza e o cosmos, podendo ser dessa forma resgatada a
valorização dos afetos tão desprezados pelo
racionalismo. Assim, somos provocados pela assertiva de que a
Psicanálise teria o dever de dizer alguma coisa sobre isso.
Como SUELENA, PLASTINO rastreia a metapsicologia freudiana até
à 3ª síntese e destaca o “primado da
afetividade”. O caráter irredutível das exigências
de Eros, apontado na 2ª teoria pulsional, impõe-se
como um ganho teórico fundamental, mas PLASTINO polemiza
a afirmação de um “automatismo” dessa
dinâmica, considerando-o uma expressão de inexorabilidade
que carece de uma crítica mais cuidadosa em função
de seu fundamento determinista. O Autor marca uma notória
diferença entre afirmar a dinâmica erótica
como exigência do ser natural do homem e a postulação
de que dita dinâmica opera autonomamente e independente
dos processos de constituição das subjetividades.
Para ele, é o paradigma da complexidade que vai permitir
pensar fecundamente esta questão crucial, para além
de um dualismo constitutivo. Autores pós-freudianos, como
Winnicott, trouxeram importantes desenvolvimentos que enriqueceram
esta perspectiva a partir de uma dinâmica afetiva ancorada
numa forma de ser, que, contudo, só vem a ser e desenvolver
suas potencialidades no contexto das relações intersubjetivas
que se criam.
Passando pelo sentimento inconsciente de culpa, apontado por Freud
como o inevitável maior problema da vida cultural, onde
então o papel de Eros seria substancial na constituição
subjetiva e responsável maior pela sociabilidade humana,
PLASTINO entende as “novas patologias” como sendo
carentes justamente desse potencial. Alude à expansão
do narcisismo nas relações interpessoais e ao desconhecimento
da alteridade como elementos formadores das discriminações
de gênero, raça, classe e nacionalidades, que dotam
a crise contemporânea de sua assustadora extensão
e profundidade. PLASTINO chega, então, a uma compreensão
contemporânea da natureza como um organismo vivo e auto-poiético,
posição que se confronta diametralmente com a fixidez
e o determinismo da teorização freudiana que considera
as “pulsões primordiais” como dados não
modificáveis da natureza. O que a Psicanálise nos
mostra a respeito de nossos afetos – nossa necessidade vital
de erotismo e intersubjetividade – pressupõe uma
valoração ética dos laços sociais
tão esgarçados hoje pela disseminação
da violência. O Autor propõe, por fim, uma conjugação
de esforços dos diferentes saberes para pensar esse complexo.
Esta edição dos Cadernos, seus Editores naturalmente,
nos propõe pensar a violência desde uma perspectiva
polifacetada e multidisciplinar, de modo que foi convidada uma
teóloga, MARIA CLARA LUCCHETI BINGEMER, para apresentar
sua colaboração num artigo sobre Religião
e fanatismo. Feliz encomenda e afortunado retorno. A Autora parte
da concepção do ser humano pático e pascal,
passional e de passagem, e sustenta a tese de que a provisoriedade
repudiada é fortemente instigada e compensada pela “sedução
do Sagrado”. Por essa via se constrói a alteridade
divina em seu mistério do outro que envolve e apaixona
com sua beleza e sua diferença, e com o qual se busca a
União. União desejada, mas também temida.
MARIA CLARA adverte sobre a inutilidade do Sagrado que nada acrescenta
à vida biológica, à longevidade e ao prazer
sensível. Ao contrário, o Sagrado exige até
um despojamento que viabilize uma entrega total. Mesmo assim,
a popularidade desse Deus permanece como um invisível e
inútil objeto de desejo, porque o drama de se sentir frágil,
vulnerável é apaziguado por essa união com
o Sem-Limites. Aí começa, nos diz MARIA CLARA, o
risco de a religião transformar-se em fanatismo e degenerar
em violência.
O fanático é um apaixonado que adere cegamente a
uma doutrina. Dominado por intolerância e radicalismo, não
se permite contemplar coisa alguma a não ser com os olhos
da morte. O Deus único das religiões monoteístas
– cristianismo, judaísmo e islamismo – carregam
por princípio uma discriminação, pois a crença
num Deus único implica a recusa de todos os outros. Quem
é devoto dos demais, portanto, adora o nada. Assim, se
Deus é o meu, o do outro é o Diabo. No 11 de Setembro
pudemos testemunhar com horror a grandiosidade da luta entre Deuses,
novas versões da Inquisição, das Cruzadas
e de outras guerras religiosas, mais sofisticadas devido ao progresso.
O fanatismo não é, assim, privilégio do fundamentalismo
muçulmano, e ainda persiste a despeito dos movimentos macro
- ecumênicos presentes na atualidade. Sua radicalidade aponta,
claramente, para a recusa do diferente.
A cultura americana seria obrigada, depois do atentado, a rever
ilusões cultivadas com a maior desenvoltura, como a negação
da morte levada às últimas conseqüências
naquele sistema, à qual se contrapôs o discurso da
Al Quaeda: “se vocês têm milhões de jovens
ansiosos para viver, nós dispomos de outro tanto prontos
para morrer”. A morte na Guerra Santa é justamente
a plenitude da vida, diversamente do que se veicula no mundo capitalista,
onde o ápice do prazer está posto na vida e no consumo
imediato do material.
Assim, evidenciam-se proposições incompatíveis
que se digladiam por não reconhecerem os valores do outro.
Só visam seu aniquilamento, porque sustentam a prevalência
do Um. Toda violência, afirma MARIA CLARA, é uma
ameaça de morte, e só um jogo de forças e
energias que se limitem e se equilibrem umas às outras
pode garantir a vida e a dignidade humanas. Para além do
julgar, poder olhar, ver e escutar se constituem no que MARIA
CLARA nos propõe como uma dimensão ética.
Apreciação sensata e pertinente, mas que sabemos
desafiar o humano. Freud, ao enunciar o rochedo da castração
e sua irredutibilidade, anunciou claramente seu ceticismo em relação
a essa transposição.
A socióloga JACQUELINE PITANGUY foi responsável
pela abordagem da violência de gênero, tecendo considerações
sobre as variáveis sociais que afetam a demarcação
do campo do delito passível de punição a
partir do lugar da mulher nos diferentes desenhos culturais, históricos,
políticos e religiosos. Permeado pela ênfase no problema
do narcisismo das pequenas diferenças, seu artigo argumenta
que a discriminação da mulher, a despeito das lutas
pelos direitos reconhecidos, ainda deixa traços acentuados,
sobretudo no terreno da saúde. É aí então,
sobre o corpo, que a mulher continua sofrendo as conseqüências
mais devastadoras de um olhar que a negligencia como sujeito e
a condena à mera condição de objeto de desejo.
Por fim, nosso colega LUIZ RICARDO PRADO OLIVEIRA, responsável
maior por essa publicação, ocupou-se com a violência
que nos é tão familiar, essa que se respira nas
Instituições Psicanalíticas e entre seus
pares. Alude à banalização de uma violência
que é incrementada pelo avanço tecnológico
e destaca seu poder de produzir alienação.
Reportando-se a um conflito recente nos “intestinos”
da estrutura da Psicanálise francesa instituída,
o Autor denuncia o caráter dogmático e religioso
que marca essas “centrais” de saber. Os “restos”
não dissolvidos da transferência nas análises
dos analistas fazem de sua devoção à filiação
um recurso defensivo com relação ao desamparo e
à responsabilidade de cada psicanalista em sua função
de transmissão. Onde o imaginário domina sobre o
simbólico, os fantasmas persecutórios se disseminam.
A submissão presente na idolatria impede o livre trânsito
da diversidade das idéias, inibindo uma combatividade que
é saudável por ser produtora de uma criatividade
que se renova, no lugar de condenar à perpetuação
sinistra do instituído. Neste sentido, que deveria se constituir
como traços identificatórios formadores de uma identidade
profissional, pela via da pertinência à Instituição,
corre o risco de resultar num mimetismo alienante que cobra, pela
ação massacrante de um superego severo e perseguidor,
o recalcamento do confronto de idéias permeado pela diferença.
Tudo que sobra, então, nada mais é do que indiferença
e intelectualização, promotores exclusivamente da
produção do mesmo, o que empobrece o vigor do pulsar
de um saber que é elaborado em processo, tornando-se, desta
forma, ameaçada a continuidade da pesquisa tão indispensável
à Psicanálise.
Seguem-se os artigos selecionados pelo conselho consultivo da
Revista, encabeçados pela sensível reflexão
que CID MERLINO faz sobre o que chamou de Homens Deserdados. A
partir de uma cena carregada de violência e veiculada pela
mídia, Cid tece preciosas contribuições para
pensar o mal-estar contemporâneo. Para entender a solidão
vigente, Cid rastreia a gênese do Supereu na metapsicologia
freudiana, sua função na construção
da alteridade, para ressaltar a importância do outro na
constituição do sujeito, em seu campo de desejo
e em sua inserção no social. Aborda as vicissitudes
do desmantelamento dessas referências em vigência,
para sinalizar a marca da presença do outro enquanto ausência,
sendo dessa forma cunhado um ressentimento que é derivado
da carência de um investimento amoroso que viabilize a sustentação
do sujeito e a positivação de suas faltas. Porque
seu texto aponta para a não integração das
funções do Supereu, que resulta na rigidez da exigência
de um só gozo e na imposição sádica
tão difundida hoje em dia, já que não alimentada
por ideais referidos aos laços sociais e do respeito à
alteridade, fomos inevitavelmente levados a pensar na fragilidade
do Ideal do Eu. A ausência de sua função moderadora
e a falta de um apelo ético fundamental, que se anteponham
às imposições radicais da duvidosa moral
atual, comprometem em muito as novas subjetividades.
PATRÍCIA SACEANU nos brinda com um texto provocativo que
discute o estatuto do estranho na atualidade. Pela via do estrangeiro
gerador do movimento ambíguo de atração e
repulsa, PATRÍCIA nos põe a pensar o ódio
à diferença e a irredutibilidade dos impulsos agressivos.
Pensa também nos canais possíveis, para que essas
forças não desemboquem necessariamente numa explosão
bélica, bem como na intervenção de instâncias
simbólicas por onde possam fluir a violência e a
crueldade, que, para além de mecanismos de defesa, constituem-se
em instrumentos e causa de gozo. A figura do “bode expiatório”
está dentro desse contexto. Por aí também
se acessa o racismo, cujas raízes, obviamente, são
idênticas ao fanatismo mencionado anteriormente. Se aqui
de novo, o triunfo do Um acarreta necessariamente o destrutivo,
se só na diversidade se constrói, me ocorre ser
apropriado formular uma interrogação instigante:
onde fica a globalização nisso tudo, com sua envolvente
proposta de homogeneização? Não teríamos
que pensar também a produtividade benigna dos conflitos,
dos quais emana sempre o novo que move mais questões e
a reinvenção de outras respostas? A AUTORA finaliza
nos remetendo à possibilidade do encontro do sujeito com
sua própria estranheza, a partir da qual, quiçá,
a estranheza do outro possa ser mais bem tolerada.
A violência pulsional é apresentada por PAULO CESAR
JUNQUEIRA, num texto visceral que escancara a sexualidade em suas
múltiplas facetas. Surpreendendo o leitor pela densidade
de um discurso coloquial eivado de todas as construções
teóricas possíveis do movimento da economia libidinal
no humano, PAULO transmite com muita graça e contundência
toda a fúria impregnada na luta pela posse, absoluta e
definitiva, do objeto de desejo. Busca desenfreada de um encontro
na verdade impossível, o que provoca o desejo é
justamente a inviabilidade de sua plena realização,
correndo atrás daquilo que nunca vai ser encontrado. Destaca-se
a polimorfia da sexualidade humana, em que uma complexidade rege
o comportamento orientando o homem nas mais variadas direções.
Sexualidade só é simples para bicho, “é
duro ser menino”, “é duro ser menina”,
árida travessia, eivada de uma grande exigência de
renúncias, em que é formado um abismo entre o eu
social e o eu do desejo. Sexualidade que só se torna possível
e prazerosa quando se desiste do objeto permanente e total. Mas
sempre, verdadeiramente sempre perigosa; de dar medo, muito medo.
EDUARDO LEAL CUNHA, nosso colega do Espaço Brasileiro de
Estudos Psicanalíticos, enriquece a edição
com os temas da confissão, da singularidade e do assujeitamento.
Tomando Foucault e Reik como suas referências teóricas,
o Autor trata das relações entre sujeito e verdade
e o lugar do sexual na enunciação e construção
do si mesmo, bem como da implicação necessariamente
existente entre afirmação de si e consciência
moral. A situação analítica, para além
do deciframento e da decodificação da verdade do
sujeito, é pensada partir do jogo das intensidades que
percorrem a cena confessional. Nesse cenário, o recalcado
se expressa, o interdito é enunciado e desejo e lei se
articulam. Gratifica-se, ao mesmo tempo, a moção
pulsional e a necessidade de punição, aplacando
a angústia (culpa) despertada pela transgressão.
Novamente, é destacado o papel do Supereu ao atuar em socorro
do Eu soterrado entre as demandas do mundo externo e a pressão
provocada pelas moções pulsionais. A confissão
implica também uma demanda de amor e de reconhecimento
pelo outro. Por fim, EDUARDO nos remete ao assujeitamento necessário
que atravessa a subjetivação, mas numa articulação
que também inclui resistência e enfrentamento. Aponta,
assim, o equilíbrio difícil e delicado das intensidades
na produção de um lugar limite entre a submissão
e a afirmação de si, entre culpa e amor e entre
obediência e desejo.
A arquitetura da violência é desenhada com muito
esmero no artigo de JUNIA DE VILHENA, em que o homem é
apontado como o único ser vivo que planeja sua destruição.
Destacando a intenção de destruir como a marca de
uma violência que é banalizada num discurso de resignação,
e a existência de um “instintivo” que não
diferencia agressividade e violência, JUNIA empenha-se em
reconstituir a dimensão criadora da agressividade, considerando-a
diversa das marcas de desrespeito à lei e de destruição
do poder, presentes no caso da violência. Remetendo-se ao
sujeito adaptado das culturas do narcisismo, a AUTORA articula
a lógica do consumo à lógica impositiva do
Supereu; mais uma vez ele e sua força determinante respondendo
pelo imperativo do gozo que submete o sujeito, quando são
desconsideras a lei e a ética. Lei que, quando instituída,
além de ser dura inclui o amor e a justiça, barrando
a imersão no pânico, no terror e na morte, bem como
no obscurantismo das paixões sem freio.
Sintoma, gozo e final de análise são os pontos enigmáticos
da articulação construída por MARIA DAS GRAÇAS
ISSA, à luz da teorização lacaniana, para
pensar os impasses da travessia da fantasia e a disjunção
do sujeito e do objeto.
A violência e o abuso sexual infantil são apreciados
por MARIA DE FATIMA PINHEIRO JUNQUEIRA, a partir da noção
de desamparo e do conceito de violência simbólica
introduzido por Bourdieu. Forma-se aí um complô silencioso,
em que o poder é exercido com a cumplicidade daqueles que
não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo
que o exercem. Poder esse que se exerce sobre os corpos de forma
insidiosa, legitimando uma dominação do adulto onde
o abuso é ingenuamente entendido pela criança como
troca no jogo dos afetos. Está implícito, aqui,
um ato de tentativa de anulação do sujeito, mediante
ataques a sua vulnerabilidade. Para além do traumatismo
no campo do sexual, a angústia então experimentada
é de morte. Chamando a atenção para a experiência
clínica, a AUTORA adverte para o cuidado de não
ser aí repetida a invasão, ao não se reconhecer
a diferença existente entre o momento em que o sujeito
tenta esquecer para fugir reativamente ao trauma e aquele em que
o esquecimento implica uma tentativa de superação
da questão mediante a abertura de um espaço com
vistas à reconstrução da própria história,
independente do personagem que lhe fora designado pelo dominador.
Se encaminhado de outra maneira, o processo analítico surge
como o espaço potencial da invenção de um
sujeito que ainda não tinha podido emergir.
Acercando-se do tema por um vértice que ainda não
tinha sido considerado até aqui, nosso colega, JOSÉ
FRANCISCO DA GAMA E SILVA, toma a imagem como pesadelo e violência,
propondo uma elaborada reflexão que inclui a estética
como objeto de investigação. Arte e Psicanálise
se entrelaçam nesse artigo, num exercício acurado
de leitura de imagens pictográficas do horror a partir
de formas expressivas e sutis de comunicação. Perceber
um sentido possível nas explosões do grotesco e
do sinistro, que remetem ao nosso núcleo vital arcaico,
e buscar uma linguagem que sirva de elemento mediador eficiente
entre um observador e o objeto, é a proposta que nos faz
o Autor. Cria-se assim um terceiro elemento que emana desse encontro,
de sorte que novos sentidos e significações possam
se dar. O artigo nos conduz a um provocativo passeio por Pollock
e Picasso, apresentando também um caso clínico,
sendo que tudo conflui para serem pensados os desencontros e traumas
ocasionados na relação original e as relações
dos mesmos com as agonias e terrores que atravessam a experiência
de existir.
O “Homem dos Ratos” é a referência de
que LUCIA BEATRIZ PITANGUY SAMPAIO lança mão para
falar do sujeito violentado pela própria fantasia. Compondo
um cenário teatral, a AUTORA cria um romance cuja tônica
dominante é a compulsão que determina todo o pensar
e o ser no mundo. Passeia com desenvoltura pela neurose obsessiva,
numa forma lúdica e absolutamente original, evidenciando
todo o tormento que decorre da erotização do pensamento
do sujeito, e que não lhe dá nenhuma trégua.
Enredado pelas dúvidas que minam sua percepção
e clamam por uma descarga barrada pelas instâncias superiores,
Paul, o personagem de Freud e de LUCIA, experimenta a instrumentalização
do afeto pela via da transferência na análise, oportunidade
em que esta funciona, então, como um operador fundamental
na organização menos caótica e favorecedora
de um funcionamento mais harmonioso. A dominância de Eros
é destacada mais uma vez, garantindo a paz possível
na redução dos conflitos ao mínimo indispensável.
Já MARIA CECILIA FIGUEIRÓ SILVEIRA optou por um
caso clínico de paranóia, para construir, à
luz da metapsicologia freudiana e com ênfase no movimento
pulsional, algumas hipóteses quanto ao conteúdo
delirante de ser objeto de espancamento dos pais, fantasia explorada
por Freud em “Bate-se numa criança”. Reportando-se
às duas funções constituintes do psiquismo,
contenção e ligação, a AUTORA identifica
a transferência como um “aparelho auxiliar de contenção”
do mundo psíquico do paciente. O que se espera é
que a partir desse instrumento possam ser refeitas algumas tramas
originais gravemente comprometidas e que novos arranjos menos
destrutivos e terroríficos possam conferir ao sujeito perpassado
pela análise, e a seus objetos, um lugar mais digno e menos
degradado. Desta forma, são constituídas melhores
condições com vistas ao seu estar no mundo.
Finalmente, temos o artigo de DANIEL KUPERMANN sobre a identificação
sublimatória, propondo a diferenciação metapsicológica
desta, da modalidade narcísica de identificação
apontada por Freud. Partindo de relatos clínicos dos efeitos
psíquicos provenientes da morte factual do pai e reportando-se
à centralidade da temática paterna na obra freudiana
a partir dos anos 20, o AUTOR especula sobre o efeito de desamparo
que a ausência do pai suscita, e que estaria manifesto mesmo
nas subjetividades melancólicas e masoquistas tão
visíveis na contemporaneidade. Depois de estabelecer um
paralelo entre a clivagem traumática formulada no desmentido
de Ferenczi e a identificação narcísica de
Freud, aponta para as vicissitudes no caminho da despossessão
da figura paterna e a conseqüente perda das referências
egóicas já consolidadas, para que seja alcançada
a libertação do masoquismo secundário derivado
dessa dependência patológica. A magnífica
Carta ao Pai, de Kafka, em toda sua contundência, serve
de referência a essa vicissitude. O espaço analítico
figura como lugar privilegiado para a promoção desse
deslizamento que oferece ao sujeito a possibilidade de reinventar-se,
livrando-o então da submissão mortífera.
Dos Cadernos constam ainda cinco resenhas de publicações
recentes valiosas e duas entrevistas de interesse para nossa área
de pesquisa.
Gostaria de compartilhar agora com vocês o que experimentei
ao fim deste trabalho que me foi designado: um sentimento comovedor
por ter sido testemunha de tanto esforço vindo de distintas
direções, e de diversos enfoques elaborados para
tentar ir mais além na missão quase impossível
de compreender um pouco mais essa árida travessia do processo
de humanização. Processo do outro, do qual somos
observadores, mas nosso também, já que nós
analistas não estamos excluídos tampouco dessa condição.
Pensei no que isso significa, em contraposição à
conturbada realidade dos tempos vigentes, quando mais uma vez,
talvez mais do que nunca, convivemos com constantes ameaças
a nossa sobrevivência e a daqueles que nos são caros.
Sobretudo agora que é tão difícil sustentar
a esperança e tão fácil sucumbirmos às
desilusões que constantemente nos acossam. E ainda assim,
muitos como nós e tantos outros continuam tentando.
A despeito da confrontação com os impiedosos ataques
destrutivos, tanto no espaço público como no fatídico
11 de setembro, ou ainda, quando mais perto de nós, como
no episódio do ônibus 174, como também no
plano privado, com os recentes assassinatos familiares de São
Paulo que escancararam a irredutibilidade do destrutivo no humano,
mesmo assim, continuamos tentando, porque não é
para desistir mesmo. Ainda que seja impossível, há
que seguir tentando. A prova de que vale a pena está aí;
essa publicação bem o demonstra: os destinos da
pulsão com toda sua intensidade e sua carga impetuosa podem
ganhar vias sublimatórias e fluir no sentido de uma produção
combativa e de uma militância amorosa. Porque é por
amor que a gente pensa e escreve, e por isso aceitamos nossa infelicidade
banal e pleiteamos, se possível, mais prazer do que dor
na aventura de existir.
Rachel Sztajnberg
Membro efetivo da SPCRJ